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Mais de 1,1 mil à espera da doação de córneas no Pará

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Brasil
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Receber a notificação de que receberá um órgão ou tecido é o momento mais aguardado por aqueles que estão na fila de espera por um transplante. Adultos e crianças têm como adversários a pandemia, além de tabus e falta de informação que influenciam na recusa dos familiares em autorizar a doação, principalmente quando se diz respeito aos tecidos oculares. Mais de 1,1 mil pessoas aguardam por uma córnea no Pará, segundo a Central Estadual de Transplante da Sespa.

A córnea é um tecido fino e transparente semelhante ao vidro de um relógio, localizado na superfície do olho. Além de proteger a visão de ameaças externas, funciona como uma lente por onde a luz entra e é focalizada. O transplante é indicado para corrigir doenças que afetam a estrutura da córnea como o ceratocone,principal indicação de transplante na população jovem paraense. Já na população idosa, ocorre em razão da alteração ocasionada por uma complicação de cirurgia de catarata (ceratopatia bolhosa) ou por doença ocular que pode levar à perda parcial da visão (distrofia de Fuchs).

Em Belém, o Hospital Ophir Loyola sedia o único Banco de Olhos estadual, sendo responsável pela preservação e avaliação dos tecidos oculares. Após estarem aptos ao transplante, são disponibilizados à Central Estadual de Transplante para a distribuição entre os receptores da fila de espera conforme a legislação brasileira. O HOL também realiza transplantes de córnea e, desde a habilitação, em 2008, até agosto de 2021, 322 procedimentos foram realizados na instituição.

A médica transplantadora e responsável técnica interina pelo Banco de Olhos, Angela Queiroz, explica que a córnea precisa ser trocada ao perder a transparência, mudar a curvatura ou sofrer perfurações. Segundo a especialista, algumas vezes os pacientes sofrem com a perda de células vitais para manter a saúde da córnea, ocasionando a opacidade.

Ela também alerta para o hábito da coçadura do olho, o que pode levar à progressão do ceratocone. “Ao perceber que a criança ou adolescente coça o olho de forma frequente, os responsáveis devem levar ao oftalmologista para uma avaliação, a fim de obter o diagnóstico e definir o tratamento”. Angela Queiroz adverte ainda sobre o uso de lentes compradas pela internet ou em óticas, sem adaptação correta para a curvatura da córnea e definição do tempo para a utilização, as quais podem desenvolver processos de úlceras ou perfuração, e levar à necessidade de um transplante.

Muitos são os que esperam por um ato de solidariedade para seguirem com projetos e sonhos, porém ainda é preciso romper as diversas barreiras, dentre as quais destaca-se uma taxa de recusa familiar em torno de 60%. “Os principais motivos são as convicções religiosas sobre a necessidade de manter os olhos íntegros após a morte, a discordância entre os familiares, o medo de atrasar a liberação do corpo e a urgência em iniciar o funeral. No Brasil, mesmo se a pessoa expressar interesse em doar durante a vida, a retirada de órgãos e tecidos só ocorre com o consentimento familiar (pais, avós, marido, esposa, filhos e irmãos)”, destaca a representante do Banco de Olhos.

O “sim” de uma família para a doação de córneas veio como um presente para o médico Rayleno Silva. À época, ele exercia a função de bancário, as complicações geradas pelo ceratocone, o obrigaram a abandonar as funções de caixa devido à dificuldade em digitar e visualizar os processos. A condição afetava os dois olhos, restou apenas 30% da visão do lado esquerdo.

“Só percebi o problema de saúde ocular com 20 anos de idade, quando a doença se intensificou. A visão ficou cada vez mais embaçada, o foco das imagens distorcido e não reconhecia as pessoas que estavam mais distantes de mim. Após três anos e três meses, fui agraciado por Deus para receber a doação”, conta.

Hoje ele faz acompanhamento periódico no serviço de transplantes do Hospital Ophir Loyola, usa colírios e lentes corretivas para ajustar melhor  o foco. Mas fora esses cuidados, Rayleno leva uma vida com qualidade. Um gesto de bondade de desconhecidos, permitiu-lhe fazer faculdade de medicina e formar uma família.“Da mesma forma que eu precisei e alguém teve essa atitude de carinho e amor pelo próximo, eu  sou um doador de órgãos, incentivo e comento com meus familiares esta questão da doação. A vida continuou para mim através dos olhos de alguém”.

Somado aos tabus existentes que dificultam o processo de doação, os transplantes de córnea foram suspensos em todo o Brasil durante as fases mais acentuadas da pandemia, somente as urgências poderiam ser atendidas. Com a vacinação em massa da população, as condições sanitárias estão mais favoráveis e as atividades de doação de órgãos e tecidos foram retomadas no estado do Pará.

O estudante de agronomia, Bruno Silva, 23 anos, só conseguia ver imagens borradas e focos de luz, ele também perdeu a visão devido ao ceratocone.  Passou por uma cirurgia no olho direito para frear a progressão da doença e evitar que atingisse os estágios mais avançados, contudo já era tarde demais para conservar a visão do olho  esquerdo.

“Em 2018, fui encaminhado para o Ophir Loyola, onde fui  inscrito na lista de espera e no mês de junho de 2021, realizei o transplante. “Eu tinha dificuldade para ler, enxergar  de longe e  aquele medo de perder totalmente a visão. Nunca imaginei que isso  iria acontecer comigo, então nem  pensava em doação ou em ser um doador, depois de passar por todo esse processo, comecei a pensar no lado das pessoas que precisam”, disse.

 

 Fila de espera é única conforme critérios estabelecidos por lei

A doação pode ser realizada por qualquer pessoa que for a óbito, a partir de dois anos até 70 anos. Há critérios específicos de exclusão, como por exemplo pacientes portadores de HIV e dos vírus covid-19, hepatites B e C. Os tecidos oculares podem ser retirados até seis horas após o óbito e, após preservadas, as córneas têm um prazo de 14 dias para serem implantadas em um receptor.Para fazer a doação, a família pode entrar em contato com Banco de Olhos pelos fones (91) 3265-6759 e (91) 98886-8159.

A comunicação sobre potencial doador ao Banco de Olhos é realizada pelas Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos dos hospitais, assim como pelo Instituto Médico Legal.  A Central Estadual de Transplantes coordena os processos de doação, captação e transplantes de órgãos e tecidos; credencia equipes, hospitais e clínicas para realização de transplantes; monitora e supervisiona o Sistema de Lista de Espera de acordo com a legislação federal. Todo o processo de registros e informações das doações e transplantes ocorre em conexão com o Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.

A fila é única, por ordem de inscrição, e independe do paciente ter plano de saúde, atendimento particular ou ser atendido pelo sistema único de saúde. Alguns casos são priorizados quando preenche os critérios estabelecidos pelas normas brasileiras. “Casos de perfuração do globo ocular, iminência de perfuração da córnea, úlcera de córnea sem resposta ao tratamento clínico, receptores com menos de sete anos com opacidade de córnea bilateral e rejeição até 90 dias após o transplante, voltam para fila e têm preferência”, informa Angela Queiroz.

Ao ser inscrito na fila, o paciente recebe um número  do Registro Geral de Cadastro Técnico e consegue acompanhar a posição dele no Sistema Integrado de Gerenciamento de Receptores (SIG). Após gerar a seleção de receptores, a Central de Transplantes disponibiliza a córnea, rigorosamente na ordem da seleção gerada, para o médico que inscreveu o paciente na fila do transplante.

“O médico avalia o prontuário do paciente e o informa sobre a disponibilidade do tecido para ele. E, se não houver condição clínica que contraindique o transplante, o paciente receberá a córnea.  Quanto maior o número de doadores, maior a chance de alguém sair da fila de espera”, esclarece a especialista.

Texto: Leila Cruz/ Ascom Ophir Loyola