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Bactérias presentes na boca abrem novas perspectivas para diagnóstico do câncer gástrico

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Brasil
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É possível diferenciar indivíduos com câncer gástrico daqueles sem câncer a partir da análise das bactérias presentes na flora bucal, segundo a pesquisa realizada pela odontóloga Gyselle Oliveira, chefe do Serviço de Odontologia do Ophir Loyola, e publicada na revista inglesa OncoTarget, em colaboração com o Laboratório de Biologia Molecular do Hospital. O tumor gástrico é a terceira principal causa de morte relacionada ao câncer no mundo e o quinto tumor maligno mais frequente. A doença tem uma alta incidência na sexta década de vida em indivíduos com gastrite atrófica crônica e intestinal.

No Pará, é o segundo tipo de câncer mais incidente em homens e o terceiro em mulheres e são esperados 860 casos novos para este ano. A elevada taxa de incidência ocorre devido ao alto consumo das nitrosaminas, substâncias potencialmente cancerígenas. Os mais afetados são os residentes na região do Salgado, onde as refeições têm como base a proteína salgada como carne de sol, camarão, charque, peixe e aqueles conservados em salmoura. Também contribui a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, baixo consumo de verduras, legumes e frutas frescas que prejudicam a ingestão de vitaminas e sais minerais que protegem a estrutura celular.

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o estudo analisou amostras da coleta de saliva e placa dentária de 192 pacientes com câncer gástrico e 192 sem a doença. Assim, comparou de forma quantitativa a proporção de patógenos, que são organismos capazes de causar doenças, orais em indivíduos dos dois grupos.

Foto: DivulgaçãoOs participantes foram submetidos a exame clínico de saúde bucal e a coleta de amostras biológicas de saliva e da placa bacteriana para análises por biologia molecular, por meio do teste qPCR (Reação em Cadeia da Polimerase Quantitativa) em tempo real. O qPCR permite a identificação do agente biológico e amplifica o número de cópias do DNA bacteriano em quantidade suficiente para uma análise quantitativa precisa do material genético. 

A partir da análise dos testes moleculares, a pesquisadora constatou que aqueles com câncer gástrico têm níveis mais elevados de certas bactérias orais, responsáveis ou pelo agravamento ou pelo processo inicial da doença periodontal, em relação a qualquer outra pessoa saudável. 

Gyselle Oliveira explica que a cavidade oral humana é “o lar das mais diversas microbiotas do corpo humano, como bactérias responsáveis pela cárie e doença periodontal”. Elas são a Streptococcus sobrinus, Porphyromonas gingivalis, Treponema denticola, Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Tannerella forsythia  e Streptococcus mutans.

Mas, segundo ela, isso não significa dizer que as bactérias presentes na cavidade oral aumentam o risco de câncer gástrico ou são fatores agravantes da doença, contudo, que “existe um quantitativo diferente de associação de patógenos orais entre os indivíduos que permite a identificação dos pacientes com ou sem esse tipo de câncer”.

 

Resultados

 A maioria dos participantes com lesões cancerosas gástricas era de pardos (77,345) do sexo masculino (61,98%) e com idade média de 52 anos. Houve uma maior prevalência de não fumantes nos dois grupos. Um índice de massa corporal médio mais alto (IMC) foi menor no grupo com câncer gástrico do que no grupo sem o câncer.

Os problemas de saúde bucal e perda de dentes tiveram um resultado positivo na correlação com câncer gástrico. As taxas de sangramento da gengiva apresentaram uma mediana mais alta em casos com lesão do que naqueles sem lesão.  Esses distúrbios orais foram relatados em pesquisas realizadas anteriormente, assim como uma representação excessiva da bactéria T. forsythia no câncer gástrico em comparação com outros estágios pré-cancerosos. 

“Outros estudos não encontraram uma associação de T. forsythia em pacientes com doenças pré-cancerosas e lesões gástricas. Em nosso estudo, T. forsythia teve uma baixa quantificação em indivíduos com câncer gástrico em relação aos indivíduos sem o câncer. Provavelmente, esse é um fenômeno regional, uma vez que não encontramos estudos semelhantes na América do Sul”, informou a pesquisadora.

A pesquisa incluiu S. mutans e S. sobrinus, uma vez que essas bactérias gram-positivas são associadas a cáries dentais.  A bactéria S. sobrinus foi mais frequente em pacientes com câncer gástrico do que em indivíduos sem o câncer. Por outro lado, houve uma menor frequência de S. mutans em pacientes com câncer gástrico do que em indivíduos sem a neoplasia.

A P. gingivalis foi encontrada em abundância em pacientes com carcinoma epidermóide oral. Modelos de tumorigênese indicou uma relação direta entre P. gingivalis e carcinogênese. A bactéria T. denticola também está associada com periodontite severa e foi detectada em amostras de tumores orodigestivos. “No entanto, em nossos resultados, este fenômeno não se repetiu no câncer de estômago, onde P. gingivalis e T. denticola foram mais abundantes em indivíduos sem este câncer”, relatou.

Em relação aos níveis de DNA bacteriano observados na saliva, foram estatisticamente significativas as diferenças entre o câncer gástrico e pacientes sem o câncer em todas as bactérias pesquisadas. No entanto, na placa dentária, essas diferenças foram estatisticamente significativas apenas em P. gingivalis e T. forsythia. Comparando o DNA bacteriano médio entre indivíduos sem o câncer e os estágios das lesões de câncer gástrico, observou-se que na saliva, a mediana de todas as bactérias mostrou diferenças estatísticas significativas em todos os estágios.

Na placa, o mesmo aconteceu com o grupo de pacientes com câncer gástrico, todas as bactérias tinham diferentes valores em todos os estágios, quando comparados ao grupo de indivíduos sem câncer. “Também observamos que o maior número dos pacientes tinha doença em estágio IV, o que é consistente com a falta de higiene bucal e prevenção do sistema trato gastrointestinal”, destacou.

Foram encontradas evidências na saliva de que os níveis de bactérias relacionadas à cárie dentária estão associados ao câncer gástrico, contudo, isso não foi relatado em lesões gástricas pré-cancerosas. “Para bactérias relacionadas à doença periodontal, os níveis de DNA da bactéria estudados foram significativamente associados ao câncer de estômago. Na placa bacteriana, essa associação também foi encontrada em todas as bactérias analisadas”, elucidou a pesquisadora.

Por Leila Cruz